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O deus da religião



Não sei bem como falar do deus da religião, pois esse é produto daqueles que são religiosos. E com sinceridade diante de todos vocês, não sei se sou ou não um religioso, mais um que não pensa da mesma forma que todos os demais ou se sou apenas um diferente pertencente ao mesmo grupo.

Explico. Religião, no original, tem um significado até compreensível, “religare”, que na prática quer dizer o anseio ou prática de que utilizamos para alcançarmos a Deus. Na verdade é uma “parada” boa, ou pelo menos de aparência boa, somos nós fazendo algo para que Deus se aproxime dos envolvidos.


O religioso, que entende o que é religião, pratica as coisas para que Deus atue em seu favor, aja em seu benefício e esteja mais próximo.

O problema é que com Deus as coisas são um pouco diferentes, Ele é totalmente outra coisa. Nenhum significado, rito ou definição poderão aprisioná-lO ou obrigá-lO a fazer algo ou deixar de fazer.

Deus não mandará um namorado porque você está a seis meses sem beijar na boca, mesmo que você leia todos os textos do “EEE”. Deus não se sente obrigado a te dar uma casa por você pagar o carnê dos pastores da televisão.

Entendendo isso, quero dizer que o deus da religião não existe.

O Deus que “É”, antes de tudo e apesar de tudo, é de quem precisamos falar.

O deus da religião conforta seu ego, mesmo que seja para dizer quão bons são os “textos” que você escreve, os livros que você lê, os sermões que você prega e as críticas que faz.

Precisamos ter cuidado para não confundir revolta pessoal com aquilo que Deus deseja falar e não confundir torcida com fé, seletividade de acontecimentos com confirmação de Deus e elogios como sinal do que Deus determina.

Que a gente aprenda então, que com o Pai, nessa relação, não somos o pontapé inicial, mas os alcançados imerecidamente. Não somos os protagonistas, mas os coadjuvantes para que autor e consumador da fé receba a glória, majestade, poder e louvor para sempre.

E se perguntarem sobre o deus da sua religião, responda: o meu Deus é o Deus desconhecido (Atos 17.23), que É o que É (Ex. 3.14).

Que Deus te abençoe. Graça e paz.

"O que importa é que Cristo está sendo pregado". Tem certeza?



 

Um amigo no Twitter me perguntou se Filipenses 1:18 não justificaria o show gospel. Acho que ele tinha em mente o festival gospel na Globo e a hipotética novela da Globo com uma heroína evangélica e as apresentações de cantores gospel em programas seculares.

Para quem não lembra, Paulo diz o seguinte em Filipenses 1:15-18:

“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia; outros, porém, o fazem de boa vontade; estes, por amor, sabendo que estou incumbido da defesa do evangelho; aqueles, contudo, pregam a Cristo, por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias. Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp 1:15-18).

A interpretação popular desta passagem, especialmente desta frase de Paulo no verso 18, “Todavia, que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado, quer por pretexto, quer por verdade, também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” – é que para o apóstolo o importante era que o Evangelho fosse pregado, não importando o motivo e nem o método. A conclusão, portanto, é que podemos e devemos usar de todos os recursos, métodos, meios, estratégias, pessoas – não importando a motivação delas – para pregarmos a Jesus Cristo. E que, em decorrência, não podemos criticar, condenar ou julgar ninguém que esteja falando de Cristo e muito menos suas intenções e metodologia. Vale tudo.

Então, tá. Mas, peraí... em que circunstâncias Paulo disse estas palavras? Se não me engano, Paulo estava preso em Roma quando escreveu esta carta aos filipenses. Ele estava sendo acusado pelos judeus de ser um rebelde, um pervertedor da ordem pública, que proclamava outro imperador além de César.


Quando os judeus que acusavam Paulo eram convocados diante das autoridades romanas para explicar estas acusações que traziam contra ele, eles diziam alguma coisa parecida com isto: “Senhor juiz, este homem Paulo vem espalhando por todo lugar que este Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, que nasceu de uma virgem, que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou ao terceiro dia, e que está assentado a direita de Deus, tendo se tornado Senhor de tudo e de todos. Diz também que este Senhor perdoa e salva todos aqueles que creem nele, sem as obras da lei. Senhor juiz, isto é um ataque direto ao imperador, pois somente César é Senhor. Este homem é digno de morte!”

Ao fazer estas acusações, os judeus, nas próprias palavras de Paulo, “proclamavam a Cristo por inveja e porfia... por discórdia, insinceramente, julgando suscitar tribulação às minhas cadeias” (verso 17).

Ou seja, Paulo está se regozijando porque os seus acusadores, ao final, no propósito de matá-lo, terminavam anunciando o Evangelho de Cristo aos magistrados e autoridades romanos.

Disto aqui vai uma looooonga distância em tentar usar esta passagem para justificar que cristãos, num país onde são livres para pregar, usem de estratégias no mínimo polêmicas para anunciar a Cristo. Tenho certeza que Paulo jamais se regozijaria com isto, pois ele mesmo disse:

“Porque nós não estamos, como tantos outros, mercadejando a palavra de Deus; antes, em Cristo é que falamos na presença de Deus, com sinceridade e da parte do próprio Deus” (2Co 2:17).

“Pelo que, tendo este ministério, segundo a misericórdia que nos foi feita, não desfalecemos; pelo contrário, rejeitamos as coisas que, por vergonhosas, se ocultam, não andando com astúcia, nem adulterando a palavra de Deus; antes, nos recomendamos à consciência de todo homem, na presença de Deus, pela manifestação da verdade” (2Co 4:1-2).


“Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós. A minha palavra e a minha pregação não consistiram em linguagem persuasiva de sabedoria, mas em demonstração do Espírito e de poder, para que a vossa fé não se apoiasse em sabedoria humana, e sim no poder de Deus” (1Co 2:1-5).

Portanto, usar Filipenses 1:18 para justificar que qualquer estratégia serve para anunciar o Evangelho é usar texto fora do contexto como pretexto.

 

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